Quero Ter Vergonha
Quero ter vergonha dos meus exageros imprevisíveis, dos meus acessos sentimentais que tem se transformado em frases verdes, que em minha pressa não comedida, escapam do pomar da minha mente e logo saem trôpegas, coitadas, mas saem.
Vergonha dos meus travesseiros, que já pedem para que eu não os abrace mais e não mais os abrace, já estão se afogando com todas minhas carências e choros sem lágrimas. Essa vergonha que minha esperança grudou na carne, vergonha dos olhares e dos juízos. Se aparento ser tão seguro, por que as ventos brincam comigo como fazem com cata-vento?
Meu rosto precisa ficar rubro com os cantores e escritores que me definem, pois cada dia eles sobem mais um degrau da escadaria do clichê. Vergonha deveriam ter as pessoas que os citam sem assimilá-los, essa pseudo – intelectualidade das redes sociais. Essa vergonha alheia, tal como entidade de candomblé, se não baixa em quem deve, baixará no mais próximo.
Anseio por essa vergonha prazerosa promovida pela ressaca, dos casos que nos permitimos ter, de quando observamos hematomas de origem desconhecida, daquela mais uma dose que nunca tem fim.
Vergonha das cartas com corações, das três palavras mágicas que fodem com tudo, dos apelidos carinhosos, do futuro disso tudo que, como sempre, é duvidoso.
Vergonha dessa vida de poeta de moeda, cara encantador, coroa marginal.
Vergonha, esse sentimento daqueles que ocultam uma necessidade humana tão básica através de uma imensa parede, feita da liga mais resistente: arrogância e falsa indiferença.
Quero ter vergonha de roubar frases e idéias literárias e de apenas encobri-las com meus devaneios. Vergonha dos textos que escrevi no mês passado, vergonha que terei daqui uns meses quando ler novamente estas frases exageradamente verdes, que meus pensamentos turvos e desenfreados, neste momento, consideram maduras.
(Insônia, 31 de maio de 2011, 00:15, ao de Mal Nenhum - Cazuza)
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