segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Texto Azul 


Eder Sallez. Auto-Retrato do Azul. Fotografia/Acrílico e Carvão sobre Papel. 29,7 x 21,0 cm. 2011. 


            O Azul é a cor do otimismo. Quando disse isso a dois amigos, logo eles foram categóricos ao dizer que azul remetia a coisas tristes.

De imediato parei para pensar: por que classificar essa cor como melancólica? Em inglês quando alguém está desiludido com a vida logo diz “I am blue”. Picasso considerava o azul como a cor perfeita para representar a tristeza, ficando famoso por sua Fase Azul, onde concebeu a solidão, a morte e o abandono através de pessoas em tom azul, assim como o fundo das obras. Estes quadros são reflexos de sua época mais precária, quando chegou a passar fome, talvez até disto tenha resultado a expressão “azul de fome”.

A cor é a maravilhosa capacidade que os seres vivos têm, através dos olhos, de captar a reemissão da luz de um objeto. Cada organismo é um complexo e exclusivo emaranhado mágico de células, o que viabiliza o milagre da existência única. Alguns seres serão capazes de enxergar um maior número de cores, ao contrário de outros. Isso enfatiza o processo fabuloso de subjetividade da captação das cores, rompendo os padrões físicos em que elas se manifestam

O Azul é uma das três cores –luz primárias, e dentro das cores primárias de pigmento, assume o papel do ciano, resultado da sobreposição deste com o magenta.As cores –luz  originaram o sistema RGB (Red, Green, Blue), pois nesta ordem, são as cores captadas pelos olhos através das células chamadas bastonetes. Noventa e quatro por cento para as cores vermelha e verde, restando apenas seis por cento para o azul. A dificuldade da percepção desta cor fez com que os tons de vermelho, verde e marrom prevalecessem nas pinturas antigas.  Será que carregamos em nós mesmos uma barreira para a captação do azul? Pelo que tudo indica possuímos uma grande limitação sensível para esta cor. É natural do ser humano ter certo temor por aquilo que não compreende totalmente, e este sentimento pode ter inserido aos poucos dentro da cor, como pequeninas pestes que atacariam uma plantação de Blue Berry.
Os indianos e os egípcios foram os primeiros povos a conseguir uma representação pictórica do azul. Os indianos conseguiram produzir um tipo de corante natural de cor azul, provindo de uma planta chamada índigo, o que gerou o azul índigo. Os egípcios, que sempre estiveram ligados ao mistério e ao divino, descobriram que o pó oriundo de uma pedra semipreciosa chamada lápis –lazuli , dava origem a um pigmento azul para a têmpera. A própria pedra era de cor azul e representava o esplendor real, assim como a segunda parte do seu nome, lazuli, é a forma derivada do latim lazulum, que veio do árabe lazward, que veio do persa lāzhward  e que veio do sânscrito Raja Warta, que significa “anel, círculo, vida do rei” (talvez uma referência ao deus Krishna, que era de cor azul). Lazuli, que antes era um substantivo, caiu nas graças das mudanças lingüísticas e se tornou azul por causa da relação direta com a pedra, e assim no inglês temos azure (para o ciano, pois o blue, o azul inglês, veio do francês bleu  que veio do germânico blau), no italiano azzurro e nas línguas irmãs, espanhol e português (que outrora eram uma língua só, o galego-português) o azul.

             Esta cor encantadora percorreu toda uma histórica lingüística e com sua tonalidade acabou por criar palavras para habitar os diversos vocábulos humanos. Em terras brasileiras, os índios tupis possuíam a palavra oby para designar tanto a as cores azuis quanto verdes, pois para eles essas cores constituíam uma única, existente em toda natureza, conseqüentemente sagrada.

Na Roma Antiga o azul era considerado algo fora da realidade, uma cor estrangeira, devido à dificuldade de reproduzi-la, por fim acabaram associando-a aos bárbaros, pois a maioria deles possuía olhos azuis. Na Alemanha Medieval a cor azul era de exclusividade dos servos, provinha de uma planta chamada ísatis que precisava da fermentação da urina para produzir a referida cor, todavia descobriu-se que o álcool potencializava a transformação, e os tintureiros passaram a ingerir bebidas alcoólicas para urinar nos tecidos, dando origem a expressão “Blau Werden” que significa “Ficar Azul”, ou seja, ficar bêbado.De certa forma o ocidente sempre emite um peso pejorativo aos conceitos que não assimila por completo. Mais uma vez percebemos os maus tratos ao azul, pois tantos os bárbaros quanto os servos estavam ligados a condições precárias de moradia e vestimenta, termos depreciativos que mais pareciam um punhado de nuvens negras para cobrir o céu.

No início do Renascimento, quando a têmpera era principal técnica de pintura, a pedra de lápis-lazuli, vinda do Oriente a altos custos, chegou a custar mais caro que o ouro, tornou-se popular entre os pintores, uma vez que originava a cor Azul Ultramar que em pouco tempo também se tornou a mais cara do mercado.  Havia contratos entre os pintores e os consumidores das pinturas (padres e grandes comerciantes) estipulando as medidas e as tonalidades do azul ultramar. O azul atingia um novo terreno, gerando uma conotação de exotismo,reforçando sua representatividade celestial, ligando-o definitivamente ao misterioso e divino, sendo aplicado às vestes de Cristo, Maria, santos e outros personagens principais dos quadros. Em pouco tempo o azul também seria cor da nobreza, gerando a expressão “sangue azul”. O ocidente passou a reverenciar o azul por seus atributos raros e únicos, era uma ascensão social, ele recebia uma majestosa coroa que lhe conferia imponência divina.

Quando a capacidade do artista passou a ser mais valorizada que a qualidade tonal, assim como a pintura a óleo passou a ser mais usual por sua durabilidade, o azul ultramar perdeu um pouco sua importância, cedendo espaço o Azul Cobalto, que apesar de imensamente tóxico e caro, dominou o espaço. 

Agora uma das cores mais visadas e belas do mercado também era a mais mortal, ironias do destino à parte, quanto mais era utilizada na pintura mais consumia a energia vital do pintor, era o azul tomando parte de seus corpos, envenenando-os aos poucos. A cor não tardaria a entrar no campo da morte e da loucura, caindo mais uma vez pelas vielas sombrias das cidades européias. Mas ainda havia um grupo de homens que desafiariam o perigo de lidar com o azul, homens bravos que iriam expor suas idéias cromáticas, procurando não deixar que ele fosse renegado como no passado.

Os Impressionistas adotaram, nada mais nada menos que o azul como sua cor favorita, uma vez que sua capacidade de percepção pelo olho humano é muito reduzida, captar as nuances desta cor era um exercício dificílimo, mas era capaz de aguçar o olhar dos pintores. Quase na mesma época, surge a Teoria das Cores de Goethe, onde ele diz que o azul seria o resultado da fuga da luz de nós até a escuridão.

O maior impacto moderno relativo a essa cor, foi quando o Iuri Gagari, o primeiro homem a ir ao espaço a bordo da Vostok 1, disse a célebre frase “ A Terra é azul”.

Depois de todos estes dados técnicos e históricos ainda me pergunto: por que associar esta cor à tristeza?

Dentro da própria Teoria das Cores, o azul assume papel de purificação, de expulsão de forças negativas, favorecendo a amabilidade, a paciência, a serenidade e a busca pela verdade interior. O azul favorece o estado contemplativo e meditativo, onde surge a criatividade e desaparece o stress, cedendo lugar à harmonia,a paz e a ordem. Quiçá os sentimentos de frieza, depressão, monotonia e isolamento associados ao azul, provem de pessoas que não conseguem manter suas contemplações balanceadas, deixando-se levar pelo lado pesado que há em todas as sensações e sentimentos.

Quem nunca sentiu aquela alegria infantil ao ver o céu todo azul depois de três semanas incessantes de chuva? Quem não ficou tranqüilizado ao respirar a brisa do mar e observar a sua imensidão azul? Quem não se tornou um pequeno ponto ínfimo diante as grandezas das montanhas que se transformam em azul no horizonte? Quem algum dia não se deixou hipnotizar pela beleza exótica de um par de olhos azuis?

Enquanto algumas pessoas se perdem no lado melancólico do azul, eu prefiro valorizar a raridade da ararinha azul, observar o oby da bandeira brasileira, lambuzar meus lábios de mirtilo, visitar cidades de nomes azuis, admirar o encanto translúcido de uma safira, pensar nas pessoas que lutavam por “Liberté, Egalite, Fraternité” guiadas por uma bandeira que tinha o azul como uma das cores, me enamorar com a luz suave da segunda lua cheia do mês chamada Blue Moon, me inspirar na garra de vencer da Squadra Azzura, interpretar a lenda mística da Rosa Azul, me enriquecer com os azuis clarinhos das paredes Rococó de Versailles, viver as dores e paixões que ainda estão presentes na Casa Azul de Frida Kahlo, me perder no azul misterioso da Noite Estrelada de Van Gogh, sentir a vida nas obras impressionistas que o azul cobalto sugou de seus pintores, deixar as mudanças surgirem com Urano e sua cor azul astrológica, me embriagar no estilo Blau Werden ao som de Djavan. Se por ventura, depois de tudo isso eu vier a chorar, que eu faça, mas minhas lágrimas serão azuis como as de Bat For Lashes em Daniel, lágrimas de alegria.

Expurgo toda essa ligação triste para esta cor mágica.

Quero correr pelo verão que o azul representa, o Império do Sol, onde não há opressão, apenas a liberdade, onde meus pés possam sentir a areia molhada e minha alma olhar para a vastidão do mar e para a grandiosidade do céu, assim serei abraçado e protegido de todo alvoroço e caos do mundo moderno. Este é o maior presente da cor do espírito, do lirismo, da filosofia e do otimismo. Essa cor fabulosa que habita a fronteira entre o ar e água.

Saibam que nos meus melhores dias, sempre estarei vestido de azul e isto será meu maior escudo na guerra contra a tristeza.


Domingo, 08 de maio de 2011, Dia das Mães, às 23:00.



Agradecimentos:

- Google e Wikipédia
- Amigos que adoram discutir sobre a “Filosofia das Cores” 



Playlist Azul  (Inspiração para escrever)

My Cabal – School Of Seven Bells
Walking On A Dream – Empire Of The Sun
Everything With You – The Pains Of Being Pure At Heart
Age Concert – New Order
Starlight – Muse
Foundations – Kate Nash
Daniel – Bat For Lashes
Azul – Djavan
Soul Meets Body – Death Cab For Cutie
Heart’s on Fire – Cut Copy
Dog Days Are Over – Florence And The Machine
Self Machine – I Blame Coco
Time To Pretend – MGMT
11th Dimension – Julian Cassablancas
Relator – Pete Yorn & Scarlett Johason 
Lust For Life – Girls 
Summer – Marsheaux





Um comentário:

Anônimo disse...

Add to your blue playlist:

Six days at the bottom of the Ocean - Explosions in the Sky

;)