Sinto Falta de Coisas Que Nunca Vivi
Sinto falta da minha bravura de cavaleiro, quando dediquei a minha vida em busca do Graal e disputei o amor de uma donzela em um letífero combate. Época em que o amor era algo nobre e as princesas me inspiravam virtudes e canções.
Não sei onde está aquela sensação de espanto, quando, em uma nau portuguesa, avistei pequenos e inocentes habitantes de uma terra quente e selvagem.
Onde foram parar meus copos de absinto? Grande Belle Époque.Ainda queria ver a cara de desdém dos críticos para minhas pinceladas quebradas, minhas cores colocadas lado a lado na tela, onde os olhos de longe as misturariam e não eu mesmo na palheta, em que lugar estão os senhores críticos neste momento? Aposto que correram para meu café parisiense favorito, roubaram meus interlocutores e colocam-se a discutir filosofia e literatura. Sentados, justamente, na minha mesa favorita.
Queria ver de novo os rostos assombrados diante das primeiras fotografias. Esse mágico processo químico da escrita da luz. Depois de anos, os próprios anônimos poderiam ser seu objeto de contemplação através de uma objetiva e não mais de uma subjetiva. Ah, como eram lindas essas caras de alegria e de tristeza ao se verem transferidas para um papel, prata para as partes de luz, o branco, sem sensibilidade para a luz, o preto, mero processo químico para simples almas.
O encanto dos sorrisos verdadeiros dos anos 50, das estrelas do cinema, dos vendedores simpáticos, a falta desta visão desencanta meu espírito. Sorrisos que chegaram aos cinemas, deixando uma platéia deslumbrada, sorrisos que abriam portas, sorrisos que aos poucos foram roubados pelas campanhas publicitárias e indústrias culturais, perdendo a cor de sua aura.
Sinto falta da textura do gramado, quando me deitei farto do amor livre, depois de ter beijado mil bocas de ambos os sexos. Sinto falta daquele dia que tirei uma flor que enfeitava meu cabelo e coloquei na ponta da arma que o soldado mirava para meio peito, esta morada de paz e amor.
Não sei que fim levou meus jeans e all stars, muito menos meus discos e fitas cassete. Se alguns de vocês, leitores, os encontrar em alguma casa, mandem - me um telegrama com informações precisas, irei pega-los assim que possível.
Longas cartas, não recebo mais. Foram trocadas pela tecnologia. O susto dos e-mails e do telefone celular também já passou.
Não tenho mais nada para sentir falta? Para produzir esta explosão assombrada e intimamente copulada com a magia, que após sua satisfação deixa este vazio unicamente preenchido pela saudade?
Posso sentir falta de personagens literários, que foram mais significativos que muitas pessoas reais. Talvez eu sinta uma saudade cultivada e projetada em cima das emoções destes seres das letras, talvez eu pague e leve meus filhos para observarem o espetáculo de uma pedra de gelo, ou viaje para um país onde todas as pessoas ficaram cegas como por bruxaria.
Passarei a sentir falta do futuro ainda não vivido, dias de um futuro esquecido. Saudades do dia em que minhas retinas irão deparar com as pessoas que viajam por teletransporte, quando eu ouvir uma criança perguntar em sala de aula “professora, o que era o lixo?”, quando eu parar no meio da rua, olhar para uma imagem de um cosmonauta projetada holograficamente no mais alto prédio e o ouvir dizer “o novo planeta possui três luas azuis”. Sentirei falta daquele dia em que me sentarei do lado de um homem simples e ele me disser “criei tudo isto, agora me fiz carne”. Eu no fundo de minha inocência perguntarei “por que então abandonou a serenidade de seu plano metafísico?” e ele me responderá “porque tal como você, meu filho, sentia falta de coisas que nunca vivi”.
(Insônia, 20 de maio, 00:51h, ao som de Time to Pretend – MGMT).
Um comentário:
Falta de coisas que não vi = Juventude interna, Eterna...
Falta de coisas que virão = Envelhecimento, Finito...
Lindo, Eder. *-*
***=
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