Borracha
Sei que você está camuflado em algum ponto das minhas memórias. Quase um ano que nos conhecemos e você se infiltrou por completo, tem medo de sair que eu sei, sempre dá suas mordidas e logo depois vem soprando, como se isso fosse capaz de diminuir sua infração, ou suas fantasias comigo, mas agora eu tenho a arma perfeita para isso.
Ontem adquiri uma borracha que me permite apagar memórias e advinha qual delas será? Passando pelo ponto onde te aprisionei a sete chaves, você não está mais. Para onde foi? Não importa, sei que vou seguir seu rastro e apagar de vez sua imagem nebulosa.
Começo a caminhar pelo corredor de minhas memórias e vejo seu vulto fechando uma porta. Justo esta recordação? Abro e saio em seu encalço. Meu primeiro aniversário, lá está você se escondendo atrás do bolo, entre as criancinhas. Covarde, eu sempre soube disso. Não posso usar a borracha, pois posso apagar pessoas que naquele instante contribuíram para ser quem sou agora.
Você tem ciência do seu plano, seus olhos de predador me sorriem desafiando. Afasto devagar enquanto você sai correndo das crianças que começam a cantar os parabéns. Tinha me esquecido da magia deste momento de alegria infantil. Sou tomado por um momento de estupor, mas não posso me deixar dominar bela beleza do passado, neste pequeno ínterim, você retorna ao corredor e pula para outra memória.
Vejo a porta bater, qual será agora? Ah, mas ele está se espetando todo nas roseiras da vovó. Eu estou ali olhando para baixo e minha tia tentando me fotografar. Há um carro estacionado perto, uma fita cassete passando, The Cure, claro. A música me contamina, a borracha treme em minhas mãos, e você mais uma vez sorri desafiadoramente, equilibra-se em um pé como o mais intrépido dos arlequins e começa a cantar a música que está tocando. Canta para me causar cólera e sabe que consegue, conhece tão bem a letra. Você se exibe, não viveu esta época, mas cultua tudo que dela surgiu. Eu me deixo levar pela melodia e quando percebo, já escapou novamente.
De propósito você deixou cair uma caneta que carregava em seu bolso, perto da outra porta onde entrou. Uma sala cheia de pessoas, todas concentradas diante de uma prova, um vestibular onde estou absorto, e você bem ali do lado, quase encostado em mim, acho que até me soprou algumas questões de português que eu tinha dúvida. Não me venha com esse olhar e sorriso de canto de boca, não há mais nada nesta sala em que você possa usar a seu favor, tenho a borracha em mãos. Agora sei como é andar pelas memórias, passo invisível por elas e ainda posso analisar cada uma, tirando novas conclusões a respeito de tudo e se quiser posso apagar as indesejadas, para isso que criei esta borracha.
Todos os candidatos nervosos, fazendo as questões sem muita concentração, e eu me vejo no canto, bem quietinho, prestando atenção em cada pequeno detalhe da prova, sabendo que mais uma parte do meu destino estava sendo traçado naquele momento. Foi quando me perdi e você escapou. Não dá pra acreditar que mais uma vez não consegui, me perdi em pensamentos e observações e lá foi você se aproveitando de tudo.
A última porta, não poderia ser diferente. O lugar onde nos vimos pela primeira vez. Depois de algumas cervejas você está caminhando comigo, estamos apenas conversando, eu na minha inocência parei, enquanto você avançou e me beijou. Beijo doce e rápido que me fez sentir amado e que não se repetiria mais. Eu sento na calçada do outro lado, vendo nós dois nos afastar e neste instante você chega e pousa sua mão forte em meu ombro, pressionando e me transmitindo força. Você já não ri mais, com um movimento de cabeça me pede para levantar, me encara duramente nos olhos, e recebo seu forte abraço, um último adeus.
Quando você me coloca dentro do ônibus é o fim para nós dois.
Não há resistência alguma de sua parte, era isso que você queria me mostrar, sua cara de desapontamento quando eu parti, pois era algo impossível de se manter, não poderíamos nos ver e nem nos envolver. Nesse instante percebo que não estou mais em minhas memórias, mas dentro de uma sua, você pulou de uma porta a outra para me confundir e me levar para seu mundo. É aqui que tudo deve terminar, não é mesmo? No seu campo, para que você sempre tenha as rédeas da situação. Antes de tudo lhe dou o último e intenso beijo de despedida. Você abaixa os olhos e o rosto, eu sei o que devo fazer, pego a borracha e começo a apagar o seu rosto, lá se vai seu sorriso irônico e confiante, seus ombros e com eles perco o local onde sempre sonhei em repousar, mãos que me tocaram e transmitiram força e pés que pisaram em meus sentimentos inúmeras vezes. Acabou.
E agora me pergunto: quem era você mesmo?
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